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Renda
Nasceu. Era linha branca. Passado algum tempo de sua vida, um par de mãos negras, dela veio cuidar. As mãos a levavam de um canto para o outro com uma leveza que nem mesmo a lã quando ainda era parte da ovelha, tinha. Essas mãos doces e calejadas mexeram em seu corpo, enrolando-a em si mesma. O prazer que sentia com isso, era incontestável.
Por puro egoísmo e narcisismo, pensou ser única. Nem bem viu seu reflexo no espelho, sentiu-se a mais bela e branca linha. Seu espanto foi tamanho quando viu que as mãos negras trouxeram outra linha branca e bela como ela, que levemente desfiou-se. Sentiu medo. Achou que era hora de ser subtituída, porque chegara seu fim. Dela, restava somente uma ponta. Para sua surpresa, nesta mesma ponta restante, foi unida a suposta substituta. E lá ficou ela, quieta, observando que com a outra, era feita a mesma coisa. As mãos negras a enrolavam num embaraço que mais parecia uma coreografia. Era isso. Tudo não passava de uma dança de mãos, agulha e linha. Enfim, da outra bailarina branca e bela linha, restou a ponta também.
Como que num ritual, as mãos negras uniram à ponta dela uma outra jovem linha branca, como já havia acontecido com sua companheira. A cada passada de linhas brancas pela agulha prateada, o encantamento crescia. E nisso, mais linhas foram unidas às outras. A dança chegara ao seu final e elas se tornaram parte de um sonho. Metros e metros para uma renda íntegra.
Agora são um vestido branco. Agora são concreto sonho de moça, que a vida toda esperou por aquele vestido. Mas que na primeira noite vai se abdicar do sonho da renda branca para se entregar ao homem de sua vida. Logo, as linhas serão guardadas para sempre numa caixa de papel em meio à traças e lembranças de uma dança.

- Postadzinho por: DS às 14h58
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